quarta-feira, agosto 31, 2016

Moreish

Assim que terminar a primeira frase da homilia, posso assegurar que já bebi três quartos da garrafa que ilustra a coisa de hoje. Fica feito o aviso.
Hoje andei horas para saber o que havia de beber. Não queria provar, queria beber bem e até ao fim, até adormecer num estado de felicidade instantâneo e fugaz, mas necessário.
Tinha andado sozinho, uma norma, por isso achei que devia beber do melhor que tinha, daquilo que achasse que tivesse a dignidade para me fazer companhia. Não podia ser qualquer coisa. Não podia e não devia! No fundo, tinha na mona uma ideia sobre o que havia de escolher. Ao fim e ao cabo, tudo estava já predestinado. Logo, este ramerrame só serve para encher. 


E quase acabar a garrafa, tenho que dizer que isto é um vinho que não tem qualquer nesga de merdas em excesso. Que é, vejam lá, vinho! Fresco, profundo, intenso, perfumado, profundamente personalizado. É, ups, um grande vinho, mas não é para qualquer um. Nem para mim.
Um vinho feito por dois putos que parecem ter ideias bem definidas e bem focalizadas. Um vinho que tem a impressão digital de uma zona que fica lá nos confins do mundo. Mas eles estão lá.


Antes de ir, será escusado dizer que conheço os rapazes. Sabem que não escondo as minhas ligações, nem por detrás de uma independência que nunca tive e nunca terei. O resto, que anda pelo meio, são entreténs que uso para distrair. Alguns acabam por cair neles. A garrafa, essa, está vazia neste momento.

segunda-feira, agosto 29, 2016

Mesas

Não pretende ser uma incursão por outros temas e assuntos. Nada disso. É antes o registo de um certo número de momentos, de ocasiões, de coisas que marcaram, que me fizeram feliz. Que me deixaram, é mais correcto, profundamente satisfeito e saciado. Digamos que me deixaram de pança cheia e com a gula empanturrada. Estiveram, a pança e a gula, limitadas apenas pelas paredes de um saco a que chamamos de estômago. Na verdade, dei comigo a desejar ter dois e poder geri-los a meu belo prazer. Assumo que gostava de ser ilimitado na capacidade de ingerir alimentos. Talvez um dia, quem sabe. É que comer é um prazer, onde o orgasmo acaba sempre por acontecer.

Portentosas bifanas, em que o molho onde foram marinadas, estufadas, temperadas são o negócio da coisa. É meter a carcaça ou o papo-seco na frigideira para ensopar, antes de a rechear com a bendita carne.  
Fatias de porco assado, como gosto. Com gordura, a tornarem a carne suculenta, húmida. Bem longe daquelas miseráveis fatias secas, sem sabor, inócuas.  
Frescura de um tomate da terra. Simples e saboroso. Soube pela vida.
Quem disse que não se come comida de sustento em dias de Verão? Claro que se come. Foi o reencontro com algumas das minhas tradições. 
Um lanche, um petisco ou aquilo que chamamos vulgarmente de entradas. Preparam o estômago, lubrificam os maxilares.  
E quando se transformam as maçadoras batatas em algo que faz esquecer o conduto? Bastou serem regadas por azeite em quantidade farta, temperadas com carradas de alho e orégãos, após terem sido mediamente cozidas com casca. Depois é irem para a grelha.
Verão sem sardinhas, não tem qualquer sentido. E é só!
Outro Prelúdio, desta vez com uma salada de pimentos superiormente temperada. Digamos que acompanhada por pão, bastaria. Na verdade, quase bastou. 
Cores e frescura. Olhando para a foto, será preciso dizer mais alguma coisa? Não creio.
O Bacalhau para a sopa de tomate. Na versão que mais gosto, tem que ter bacalhau. O ovo, para mim, é dispensável. Mas não renego. Fica-se com o corpo preenchido.
Verde. A cor que gosto, apesar de não acreditar na esperança. 
Observem. Representa a hospitalidade de uma casa. Acabado de chegar, a mesa foi posta, os copos distribuídos, garrafas abertas (não me lembro do que bebi), canivetes facultados. Comeu-se e falou-se. 
E fica aqui arquivada, neste pasquim, onde as regras estipuladas, sejam elas quais forem, são as minhas, a homenagem a todas as pessoas que perderam o seu tempo a fazer o que fizeram. E até à próxima.

quarta-feira, agosto 24, 2016

Sezures Encruzado


Apanhei este vinho num lugar altamente improvável e perdido no meio de uma prateleira. Devo dizer-vos que fui confrontado, no acto do pagamento, por uma curiosa pergunta: Sabe que vinho é esse? 
As referências que tenho sobre ele, o vinho, são muito vagas. Conheço via FB, o perfil do ou de um dos responsáveis pelo vinho. Depois uma ou outra referência ao vinho na rede. É pelo que percebi, distribuído pela SWOP. Mas adiante.


Pareceu-me um vinho sóbrio, felizmente contido, sem revelar aparentemente qualquer tendência para excessos da moda. Apreciei francamente a capacidade que revelou para produzir saliva, pela frescura que mostrava. Um conjunto que me pareceu muito equilibrado, deixando a ideia que estamos perante um vinho sadio, feito com o intuito de ser qualquer coisa diferente. 


Dá a ideia que pretende fugir da normalidade que muitos encruzados do Dão começam a apresentar. Gostava de saber se há continuidade e qual o estado das coisas deste pequeno produtor. 

segunda-feira, agosto 22, 2016

Mundo Chiclete

Acabei de ler no blogue do JB que "a minha vida não se faz no vinho". Nunca uma afirmação fez tanto sentido, como esta. Tens razão JB. Tens toda a razão. É muito mais que isso. Acrescentaria que a verdadeira vida é estar longe de muitas coisas que agora parecem querer fazer parte de nós: as partilhas e as amizades alicerçadas na conveniência.
A verdadeira vida, não sei, talvez seja andar longe daquilo que pareceu ser, mas que afinal nunca foi. Em que algo deixa de ser, de ter importância ou valor com uma velocidade louca. Nasce e morre num clic. Faz lembrar aquela chiclete que se prova, mastiga e se deita fora para qualquer lado. Que serviu apenas enquanto tinha sabor.

A vida talvez seja andar longe daquela paranóia em que tudo tem que ser bom, bonito, feliz e perfeito. Em que aquilo que faço e com quem estou é incomensuravelmente mais importante do que aquilo que fazes e com quem estás. Pois é JB, vivemos num mundo chiclete, em que o valor de uma coisa qualquer é medido pela durabilidade do seu sabor. E é uma tremenda chatice quando já não tens sabor para dar ou já não gostam dele.

quinta-feira, agosto 18, 2016

António Madeira Branco 2014

Sem qualquer pudor ou cuidado nas minhas palavras, arrisco dizer que pareceu-me estar perante um vinho com uma estrutura, com uma complexidade, com uma frescura que, durante largos momentos, não me deixou vociferar qualquer coisa. Ímpar. Porra, isto era bom. Muito bom! Na verdade, o melhor vinho é aquele que nos cala, que nos impede de escrever longas e inúteis descrições. Ou é ou não é.


Não é vinho para quem procure exotismos, imediatismos ou outro qualquer quejando mais moderno, mais urbano ou aprecie silicone. Tem arestas, tem tanino e tem muita personalidade. É vinho. É um grande vinho do Dão que é capaz de durar mais, quiçá, que os demais. Aposto. E no meio de alguma preocupante normalidade nacional e regional, começa a ser raro beber qualquer coisa que me deixe, vá lá, surpreendido. Surpreendido, satisfeito, contente e alegre fiquei eu, depois de ter bebido a garrafa toda.


E a quem ficou embuchinado ou agastado com tamanhos comentários, siga em frente. São coisas minhas. Aos que estão fartos é só desligar as notificações. Que isto é capaz de piorar. 

quinta-feira, agosto 04, 2016

Axioma

Eu partilho se tu partilhares. Não tem nada que saber. Eu meto like, se meteres like. É espectável, não achas? Se mostrares interesse, também mostro interesse. Mesmo não sabendo o que é ou do que se trata.


Eu comento, se comentares, mesmo que não estejamos de acordo. Tudo simples e sem grandes variáveis. É só cumprir o axioma das relações entre amigos. Evidente, não achas?

quarta-feira, agosto 03, 2016

Vindimas Excelentes. Mais uma vez?

Acabou de cair na caixa de entrada da conta de mail associada a este pasquim, uma certa comunicação proveniente de uma determinada CVR que perspectivava (mais) uma excelente colheita para 2016. Reparei, então, que nos últimos anos todas as vindimas, de norte a sul, têm sido excelentes a todos os níveis. Vai faltar pouco para que nos diversos canais de televisão, privados ou não, surjam reportagens a corroborarem a excelência de mais uma colheita. 


Ouve-se durante um ano que isto não vai bem, que isto está mal, que o tempo está assim, que aquilo está assado. Um rol de desgraças e infortúnios que vão desembocar, vejam lá, em mais uma excelente campanha. Não há, portanto, uma vindima que seja má, menos boa, que não seja nada de especial. Que não preste. Tudo é bom e como tal todos os vinhos vão ser bons por consequência. Tudo normal, portanto. E era só. 

terça-feira, agosto 02, 2016

Sossego!? Não era Necessário...

Vão até onde? Faz-me impressão olhar para marcas consagradas a entrarem no jogo do downgrade. Explicando melhor, não entendo a vantagem em criar sistematicamente vinhos que vão cair na base da pirâmide, sem qualquer mais valia, sem trazerem nada de novo.


Qual é o objectivo? Não bastava o que havia ou é preciso descer cada vez mais a fasquia do preço, da qualidade, do interesse? Atrevo-me a dizer que o que vale é a enorme máquina de propaganda que existe, a todos os níveis. O produto anda muito perto daquilo que consideramos inócuo. Por favor, não havia necessidade. Não havia mesmo. Ou se calhar havia. Não sei.

segunda-feira, agosto 01, 2016

Como diz o Outro: Não havia Necessidade!

Há vinhos que são paradigmáticos. Vinhos que nos dizem que não precisavam de ser mascarrados com alguns extras. Extras que se revelam profundamente supérfluos, acabando por tornar o vinho em algo que nem é peixe e nem é carne. Ficam presos a um limbo que os impede, aos vinhos, de terem uma personalidade bem mais vincada. Parecem que querem ser tudo. 


Este vinho, este mesmo, não precisava e não merecia ter o cheiro da madeira tão presente. Se a dose, a força do pau fosse um pouco menor, tínhamos aqui um super vinho. Seria um vinho com outra dimensão, com outra finesse, com outro equilíbrio. 


É um bom vinho, que costumo comprar e beber, mas fico sempre com a impressão que seria outra coisa bem melhor, para mim, se os níveis de carvalho fossem um pouco menores. A fruta, a frescura, o nervo e a intensidade mereciam outra abordagem. Acho eu. Ainda por cima, até sou um gajo que bebe quase tudo. É que é, talvez, o melhor vinho branco que o produtor faz. 

domingo, julho 31, 2016

Estupidez Azul

Aviso: O título nada tem a ver com clubismos, nem muito menos pretende achincalhar os adeptos das equipas que tradicionalmente trajam a azul. Esclarecimento feito. Dito isto, devo dizer que nunca pensei que esta foto tirada, numa das raríssimas visitas à Bacalhôa em Azeitão, fosse premonitória de qualquer coisa que iria ultrapassar a linha do disparate. Uma fronteira que nunca pensei que alguma vez fosse dobrada. 

A foto é minha.
Ainda pensei que houvesse algum bom senso aqui no Condado. Mas não. Há que copiar o que de inútil se faz lá fora. Não podia ser de outra maneira.
Devo dizer que fiquei, ou não, estupidamente surpreendido pela enorme estupidez que foi criar um vinho azul e divulgá-lo com enorme orgulho, com enorme satisfação, como se fosse, sei lá, uma das últimas maravilhas. 

A foto é da Vida Rural.
É caso para dizer que também fiquei azul ao ver tamanho despropósito o que apraz dizer que azul, neste caso, é sinónimo de alienação, de falta de bom senso, de ausência de outra coisa qualquer que não sei bem dizer o quê. E o Casal Mendes que achará da coisa?

quinta-feira, julho 21, 2016

Um litro e meio de Quinta da Leda

Nada melhor do que termos pela frente vinho em quantidade suficiente, em que o fim não está à vista. Em quantidade suficiente para atingir aquele estado de ebriedade, tão necessário em algumas alturas da vida. E depois dormir como se fôssemos um daqueles anjinhos que não têm sexo. Ou se têm, um tipo não consegue descortinar quem é quem.


Se muitas vezes atingimos esse nível de alheamento com uma porcaria qualquer, com um vinho que veio sabe-se lá de onde, imaginem o que é fazê-lo com algo incomensuravelmente melhor. Em vez de tragar rapidamente para atingir o tal objectivo, podemos ao invés sentir o que vai acontecendo com os nossos sentidos de forma pausada, num ritmo muito mais controlado, muito menos ofegante e com um nível de gozo muito maior. Assim vale a pena.


O resto é igual: vai-se bebendo até alcançarmos o que queremos: o fundo da garrafa e a alegria de estar de alegre e distante da bosta ou das bostas que nos apoquentam sistematicamente.

segunda-feira, julho 18, 2016

Quinta de Foz de Arouce: de 1996 a 2016

Há coisas do caraças. Um simples vinho com vinte anos de idade, leva-nos num ápice a parar com os ponteiros do tempo e recambiar para trás. Faz-se uma breve revisão de vinte anos de vida. Relembra-se, sem qualquer esforço, o que aconteceu em mil, novecentos e noventa e seis. Porra, naquela altura o sonho ainda comandava a vida. Ainda. Com muita coisa já metida nas gavetas, é certo, mas ainda havia aquela sensação que talvez fosse possível dar a volta ao texto.


O angustiante disto tudo é ter percebido, quando os ponteiros do tempo voltaram a rodar, que estou vinte anos mais velho, com menos vontade, com muito menos expectativas sobre tanta coisa e sobre tanto assunto. Está-se naquele estado de deixar rolar as coisas simplesmente, não julgar, não planear, não pedir nada. E profundamente desconfiado com as intenções dos outros. De pé atrás, como o povo costuma dizer.


Bom, o que importou é que o vinho estava com mais força e garra que eu. É o que interessa ao fim ao cabo, para aqui. Para beber aos copos, sem parar e sem complicar muito.