sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Sobre os Prémios no Sector dos Vinhos

Como todos sabemos, estamos na época alta dos prémios do sector do vinho. A indústria do vinho está, portanto, ao rubro. Existem prémios para as mais diversas categorias, sendo que algumas parecem-me um pouco inusitadas. O espectro é, portanto, muito alargado. 
Este ano, tal como no ano passado, não vou comentar aqui no blogue a justeza dos prémios, que foram já atribuídos ou que irão ser atribuídos. Todos são justos. Não quero e, na verdade, não me apetece. Talvez recupere, um dia, a vontade. Sempre fui um gajo de vontades. Ou tenho ou não tenho.


No entanto, endereço, desde já, as minhas felicitações a todos os que já foram agraciados e que irão ser agraciados. Os que não foram agraciados, ainda, e que desejam muito, um dia, ser premiados, continuem a lutar com afinco. Talvez um dia possam ter, também, uma estatueta ou diploma nas mãos. Reconheço a importância que os prémios tem para a indústria do vinho, para quem vive do vinho, nas mais diversas vertentes: produção, distribuição, promoção. Sem vós, nós não tínhamos vinho para beber e comentar, dizendo bem ou mal.
Sobre os prémios W, atribuídos por Aníbal Coutinho, apraz dizer que mantenho o que já disse e como tal, devolvo educadamente a menção que foi me atribuída. Não ando atrás de prémios, sejam eles quais forem. Vivo o mundo do vinho à minha maneira, como me apetece. Já fico (muito) contente por vocês lerem, seguirem, comentarem ou não o que vou dizendo por aqui. Concordando ou não. Gostando ou não.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Porra!

Anda um tipo completamente despreocupado, à procura de qualquer coisa para a vianda, quando olha, por acaso, para uma prateleira. Para uma daquelas prateleiras que estão lá em baixo, ao nível dos pés. Salta à vista uma única garrafa, enfiada num emaranhado de outras que não tinham qualquer interesse. 


Estava já um gajo sentado à mesa a comer a dita vianda, quando os olhos brilharam com a porra do vinho, que tinha ali à frente. Caramba, estava em perfeitas condições, num estado de equilíbrio assinalável. Cheirava bem, sabia muito melhor. Com uma profundidade e equilíbrio que arrebatava. Fruta sadia e grande frescura. Tanto por tão pouco.


Bolas, já me tinha esquecido do potencial deste vinho branco (a colheita de 2016, salvo erro, não me parece tão bem conseguida), da sua capacidade para aguentar e enriquecer com o tempo. Sempre olhei com pena ou perplexidade para o facto de nunca ter sido criado um vinho branco que amandasse esta casa para outro nível. Ah, esteve melhor, depois, à hora do jantar. Onde conseguiu catapultar-se para outro patamar. Exagero? É provável ou não.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

Vinha Paz: O brilhantismo de um Vinho

É o que eu digo. A loucura pelos novos rótulos, faz com que releguemos para lugares subalternos, nomes que eram, no passado, incontornáveis. Decididamente é uma autêntica parvoíce, um gajo andar sempre a correr em busca da derradeira novidade. 


A última garrafa de um lote que fui construído ao longo dos anos. E naquele acto meramente instintivo, saquei do vasilhame e libertei o vinho da clausura, em que se encontrava. Os meus olhos brilharam. Profundamente fresco e seco, empachado daquele carácter do Dão, onde a caruma, o mato, a pedra e tudo aquilo, para quem conhece bem a região, tem.


Naquele jogo de palavras que gosto de ter, nem que seja só para mim, diria que através de um simples copo, senti e vagueei por entre uma porrada de sensações muito íntimas e pessoais. Um vinho de grande dimensão, maduro, com uma estrutura de aço, mas ao mesmo tempo brilhantemente elegante. Estava para durar anos. Um exemplo de consistência, a um preço baixo para tanta qualidade.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Aproveitem!

Premium, Signature, Vinhas Velhas e Superior. Estas são as palavras mais usadas na feira de vinhos da maior garrafeira do país: A do Continente. 


São vinhos de autor, únicos, personalizados, cuidadosamente escolhidos para o consumidor. Ainda por cima, vendidos a preços arrebatadores, quase ao preço da uva mijona. Aproveitem a oportunidade única e encham o carrinho das vossas compras com vinhos de topo. São vinhos, partindo dos epítetos que têm, produzidos a partir das melhores uvas de cada produtor. Tudo pensado ao pormenor.

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Arroz de Marisco: Um paradigma

Estou prestes a desistir de comer arroz de marisco. Com a idade, a falta de paciência e a pouca tolerância para chupar cascas e carapaças, que se metem no meio dos dentes, dei comigo a olhar de lado para o arroz de marisco. Já nem sequer me refiro aos que levam creme de marisco como base ou que são feitos a partir de uma calda de tomate pré-preparada, em que é acrescentado arroz branco, já cozido. E nem falo na insistência em usar arroz agulha.
Não acho piada ao arroz de marisco que vem cheio de patas de sapateira, aquelas mais finas, que um gajo tem de se sujar todo para as chupar e que nada lá encontra. Assusta-me o martelo. Imagino, logo, tudo a espirrar para todo o lado ou um dedo esmagado. Um esforço titânico para retirar o pouco conteúdo. Uma bodegada. Não curto nada ver uma quantidade abismal de conchas de bivalves sem nada, do meio do tacho. Vazias. E, também, já nem falo do marisco de viveiro, camarão ou gamba, que metem lá para dentro.

A foto é meramente ilustrativa. Retirei-a do google
Irrita-me, ainda mais, é ir para afamadas zonas ribeirinhas e gramar com arroz de marisco digno de um daqueles restaurantes de zona comercial, ao estilo Disney ou, por outro lado, com pretenciosos arrozes de marisco, em que o marisco é quase holográfico. 
Ainda fico mais lixado, quando me propõe um arroz de marisco sem cascas, estupidamente mais caro, com preços demenciais, do que aquele que possui uma porrada de detritos calcários. Por favor, arranjem-me um bom arroz de marisco.

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Sem Formalidades

Gosto de gajos que não fazem concessões, aprecio malta que se borrifa para grupos ou pandilhas, mesmo sabendo que vão ser, mais tarde ou mais cedo, colocados de lado, desviados ou marcados como leprosos. Quem o faz sabe, de antemão, que será ostracizado para sempre. Sair do conforto, da protecção do grupo, é um acto arrojado e nem todos têm a capacidade e estrutura mental para o fazer. Estar no grupo ou ter um grupo garante, apesar de tudo, comida, bebida, dormida e conforto. Quem não quer?

Um gajo anda sempre a vasculhar por novidades e esta sede, por tudo que tem rótulo novo, cega-nos. A maior parte das vezes, esta loucura não faz qualquer sentido. Há muito tempo que não bebia um vinho de Luís Pato. Também cego. Um Vinha Formal masculino, profundamente sério. Com um nível de austeridade e estrutura que faz afastar os mais sensíveis. Com uma dimensão que merece registar. Apresenta um estilo pouco consensual, férreo, com uma enorme capacidade para evoluir. Foi um crime abrir esta garrafa, mas ainda assim, permitam-me que vos diga: É um grande vinho!

Admiro ainda mais os que não querendo saber do que se passa à volta, conseguem opinar sem se preocuparem com as consequências das suas palavras e ainda assim serem, vejam lá, tratados com veneração. Caramba, é uma arte que não está ao alcance de todos. E eu aprecio. 

terça-feira, janeiro 30, 2018

Restauração de Alcochete: Um Sucesso por explicar!

Existem fenómenos que não entendo. Faço um esforço para entender a razão disto ou daquilo, mas não consigo encontrar justificações plausíveis. 
Vivo em Alcochete, mais coisa menos coisa, desde que a Ponte Vasco da Gama foi inaugurada. E desde essa altura, reparo que esta vila apenas cresceu em betão armado, sem estruturas socais e de lazer que sustentem este aumento da população. Na verdade, o que existe nesta localidade, que está paredes meias com o distrito de Santarém, não serve tamanha concentração de pessoas. Mas adiante. 
Após vinte anos a frequentar esta vila, não entendo o sucesso da restauração de Alcochete (e do Montijo também). É uma restauração em que se baseia essencialmente na travessa de alumínio (mal servida), na trivial batata cozida com brócolos e no presumível peixe de mar. Peixe do mar que é, dizem as más línguas, comprado nas grandes superfícies comerciais da zona. Bom, posso dizer-vos que me cruzo, bastas vezes, com muitos gerentes e donos de restaurantes, vejam lá, nas bancas de peixe dos supermercados e hipermercados. Reparo que compram o mesmo peixe que eu e aproveitam as mesmas promoções. Mais interessante, depois, é ouvir os comentários das senhoras peixeiras dessas bancas: "depois dizem que é da lota de Setúbal ou do mar..." Vocês não imaginam as caixas de peixe e outros produtos do mar que saem destas áreas comercias, com destino aos mais famosos restaurantes da terra. 


É uma restauração pobre, monótona, onde tudo é igual. Dizem que é terra de caldeirada. Caldeiradas profundamente inócuas, servidas e feitas às três pancadas, em que o peixe escolhido é pouco, pouquíssimo e quase sempre o menos nobre e o mais barato. Nobre, só o preço. Aliás, só o preço é que situa em patamares elevados. 


Se quisermos fugir do peixe assado, temos as carnes. Carnes de excelência, grelhadas no ponto, compradas nas promoções dos mesmos supermercados e hipermercados da zona. As opções são muitas: entremeadas, costeletas, entrecosto, costela de vaca ou salsichas frescas. Umas vezes são do Intermarché. Outras vezes são do Pingo Doce. Mas também podem ser do Continente. Acolitadas com aquela batata frita especial, pré-congelada, do pacote e que podemos comprar nos mesmos lugares de onde vem o peixe e a carne.
O marisco, principalmente os crustáceos, é seleccionado a partir das melhores promoções e proveniente, também, das melhores produções de aquacultura. Principalmente asiáticas. As famosas ameijoas são, naturalmente, do rio Tejo. Apanhadas pelas inúmeras mãos romenas ou tailandesas, que se dedicam à apanha desta iguaria local. 
Os poucos projectos que pretendem ser diferentes são, muitas vezes, pretenciosos, não tem alma, são caríssimos para o que oferecem e já estão mortos, logo à nascença. Os que vão vivendo e sobrevivendo é porque são finos e elegantes (cof, cof) e fica bem frequentá-los. 
Por tudo isto e mais alguma coisa, vemos os passeios cheios de carros amontoados, filas de espera, ruas cheias de gente, restaurantes abarrotar, logo a partir de quinta-feira. Mesas alinhadas na rua, forradas a papel, azeitonas miseráveis, como entrada, vinho em jarros de água. Autêntico sucesso. Resta-me praticamente um único local em Alcochete, que frequento com muito prazer. Um autêntico oásis. 

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Esporão

Crónica pessoal, sem grandes novidades para partilhar. Sem grandes descobertas para revelar. Sem nada de novo para escarrapachar aqui. É, digamos, mais palha para o palheiro, que é o meu blogue.
Tinha o hábito, já lá vão quase 20 anos, de comprar, beber e depois guardar, para memória futura, um reserva do Esporão. Por razões muito simples. Achava graça ao vinho e aos rótulos. Fui guardando algumas. Agora, simplesmente compro para beber, logo que saem as colheitas novas. Um pouco como o Soalheiro Clássico. Vinhos que, apesar de não estarem no saco das minhas preferências actuais, faço questão de os provar. Não deixa de ser relevante a consistência deles. É assinalável. 


Tinha e tenho uma caixa encalhada com vários reservas do Esporão, empilhados uns em cima dos outros. Estão na patamar das memórias. Daquelas coisas que se guardavam, mas que, por uma razão ou por outra, deixaram de fazer sentido. Um desses reservas é o badalado Bin Laden. 


Ontem, domingo, enquanto andava à procura por algo para acompanhar a vianda que ia comer ao almoço, detive-me a olhar para a dita caixa. E de forma aleatória, peguei numa garrafa e preparei-a para a cerimónia. Pó limpo e rolha cá para fora. Uma rolha perfeita, devo dizer. Já com os rebordos acastanhados, mas ainda profundo na cor, fui enfiando goles atrás de goles, no bucho. Estava aprumadinho. Sedoso, equilibrado e licorado. Com nuances de fruta seca e folhas de chá. Estava fresco. E naquele diálogo mudo que tenho muitas vezes com o vinho, fui repassando episódios de dois mil e um. Ano que não foi particularmente bom, a título pessoal. 

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Comprem!

Meus caros amigos do peito, nem tudo está perdido. É possível ir a uma grande área comercial e comprar um vinho diferenciador. Provavelmente, a maior parte da malta que compra vinho, nem lhe dará grande importância. Quase de certeza que vai cair em escolhas triviais, habituais, normalizadas, consensuais. Nada a criticar. São gostos e cada um tem os seus.


Este Curtimenta alentejano merece toda a atenção, por parte de quem gosta de vinho a sério e que procura por algo que tenha, vá lá, mais carácter, que seja um pouco mais desviante da norma. Não sendo a primeira vez que o bebo, digo-vos, sem qualquer rodeio, que temos muito vinho para tão pouco dinheiro, como disse o meu amigo Joli, em relação a outra pinga.


Por menos de 10€, é possível beber um vinho branco com personalidade e muita profundidade. Muito seco e bastante fresco, duro, quase masculino, com tanino e estrutura capaz de aguentar aquele prato mais robusto. Emparelhou, vejam lá a coisa, com uma feijoada de choco e gambas, bem puxada. Não uma daquelas todas pipis, para gente mais delicada. E o malandro do vinho aguentou-se, desde a primeira hora, sem vacilar. Por isso, comprem! Se não gostarem, mandem-me as garrafas. 

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Continua a ser, aliás, o melhor!

Foi um daqueles dias em que escolhes uma garrafa especial e te deleitas com ela, sozinho, ao mesmo tempo que comes um simples peixe, assado no forno. Assado sem grandes artimanhas culinárias, sem grandes malabarismos na confecção.


Depois de muitos meses, sem o beber, confirmo que é o rosé que mais me emociona a beber. É literalmente, para mim, o melhor rosé. A sua complexidade e profundidade são ímpares.


Está ou estava, pois a garrafa foi-se, num estado de equilíbrio, de maturação inagualáveis. É, literalmente, um rosé que é vinho. Aliás, um grande vinho!

sexta-feira, janeiro 19, 2018

O Poder da Imagem

Existem imagens que escusam palavras a acompanhar. As palavras, essas, que são muitas vezes incapazes de descrever o que se vê e o que se sente, quando olhamos para determinada imagem. Tornam-se inócuas e desnecessárias. 


Por vezes, a intensidade da imagem é de tal ordem que consegue agarrar-nos, assim sem mais nem menos. Ficamos parados a olhar para ela. Estáticos e embebecidos, sentindo um conjunto de reacções ao longo do nosso corpo. Umas mais aqui, outras mais acolá. É o chamado poder da imagem que vale por mil palavras, como disse Confúcio.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Carrocel

E quando num acto irreflectido, sacas de uma garrafa, a bebes sozinho e te delicias com ela. É o quê? O anúncio diz que é impulse. 


Bebes o vinho, muitas vezes acompanhado por uma simples vianda, sem qualquer preocupação com a combinação ou maridagem como dizem os gourmets deste mundo.
Vais engolindo trago após trago, a ritmo cadenciado, caminhando para um estado de letargia, onde não existem confusões, amarras e nem comprometimentos sociais. Entras literalmente num carrocel de liberdade.


Quando caem as últimas gotas do vinho no copo, páras, observas e dizes para contigo: Que porra de vinho!